Cicloviagem para a Lagoa do Casamento

Depois de umas duas ou três pedaladas vergonhosas – urbanas, com objetivos meramente logísticos – que não renderiam sequer uma história ruim para contar (mas pelo menos tiraram o pó do meu quadro e inauguraram o ano 2014), finalmente a Guiga me tirou da garagem para uma curta cicloviagem regada a sangue, animais peçonhentos, ameaças mortais, costelas de vaca e areia fofa. Fugindo do carnaval tradicional, fui acampar com minha nova amiga Nautilus, seu dono Butina e a Guiga, na Lagoa do Casamento.

Curtindo o carnaval 2014

Curtindo o carnaval 2014

O lugarejo fica a aproximadamente 60 km de Porto Alegre. Lembram de quando a Guiga tentou me levar para a famosa Varzinha e arregou na primeira grande subida de areia e cascalho? O camping onde ficamos dessa vez era uns 15 km depois dessa subida do inferno. Quem diria que, passando a lomba, viria uma estrada plana e retilínea, perfeita para derrapagens?

Saímos às 8 h de sábado, rumo à casa da Nautilus. O dia estava tão bonito que garantiria uma insolação caso a Guiga esquecesse o filtro solar. Como o trânsito estava no sentido contrário, já que o povo dirigia-se ao litoral e não ao interior do estado, a ida foi muito tranquila. Já conhecíamos o caminho, e inclusive paramos no quiosque do Kiko para tomar um refrescante suco de laranja.

A Guiga estava testando seus novos alforjes e a mochila de hidratação em um percurso mais longo. Tudo indica que os equipamentos foram aprovados… O que não foi aprovado ainda foi o ângulo do selim, que causou algum estrago naquelas partes do corpo carinhosamente transformadas em palavrões que não posso mencionar na frente das crianças.

Chegando na estrada da Varzinha, paramos mais uma vez para comprar queijo colonial e licor de jabuticaba. Há promessas secretas de que a Guiga nunca mais viajará comigo sem esses dois “ingredientes”, essenciais para o total desfrute de um acampamento à beira da lagoa. Passado o pit-stop no alambique local, veio a derradeira lomba, ultrapassada com muito esforço físico e mental. Talvez por culpa minha, a Guiga não aguentou tanta inclinação e foi me empurrando até chegar lá em cima, onde descobri que o pior estava por vir: a descida.

Será que essa tartaruga quer uma carona?

Pedalar em estrada de chão é o trunfo de qualquer cicloturista. Por um lado, há menos chances de encontrar automóveis dirigidos por assassinos em potencial; por outro lado, há cumes onde o cascalho assenta o chão, e há vales onde a areia fofa chega a uns 10 cm de profundidade. Isso significa que subir uma ladeira pode ser mais fácil e mais rápido do que descê-la – com as mãos nos freios, desviando de buracos e tentando evitar as derrapagens. Se eu entendo alguma coisa de matemática, posso afirmar que a Guiga me levou ao chão em 6 de cada 5 derrapagens. Ela chegou ao camping virada num croquete a milanesa, rindo para não se preocupar com o real significado de “cair de bicicleta”, enquanto a Nautilus mantinha tanta serenidade quanto seu piloto Butina.

A ponte da incerteza.

Nos últimos trechos antes do camping, o terreno variou um pouco e, além da areia e do cascalho, rodei por esterco, lama e poças de água. As costelas de vaca eram inevitáveis, pois estavam espalhadas por todo o trajeto. Apesar de sua inútil existência, prefiro a dureza das costelas de vaca à maciez da areia. Suspensão para quê? Para tirar a emoção de pedalar com a poupança saltitando serelepemente sobre o selim?

Empurrando no areão

Quase lá!

Eis que surge, vários quilômetros após a entrada para o camping da Varzinha, uma placa informando algo sobre um parque eólico ou qualquer coisa que não tivesse qualquer relação com o camping. Era só dobrar à direita e seguir em frente. Aí, sim, a indicação para o camping indicava mais algumas frações de quilômetros até chegar lá. Infelizmente a quantidade de areia fofa por buraco aumentou e eu não aguentei mais. Pedi para ser empurrada porque afinal de contas não tenho tração 4×4. Sequer tenho 4 rodas para tanta aventura.

Eu e Nautilus fomos empurradas até o camping, onde o próprio dono nos recebeu com um sorriso no rosto e um abraço caloroso a simpatia que julgava adequada para os frequentadores do local, transparecida nas seguintes palavras:

– Quem são vocês? Quem indicou o camping para vocês? Quantos dias pretendem ficar?

Enquanto o Intel Inside mental da Guiga decodificava a mensagem para responder algo que fizesse sentido, o Butina foi logo dizendo que ele mesmo já havia frequentado o camping em outra ocasião, também acompanhado da Nautilus. Ufa, foi o suficiente.

Acampando ao pé da árvore

Ô barraco.

A Guiga montou a barraca perto de uma árvore, e o Butina esticou uma rede numa sombra próxima. A Lagoa do Casamento estava a uns 20 m dali, soprando vento o bastante para causar calafrios nos campistas. Se eu tivesse carregado menos peso, teria deixado em casa justamente a manta que a Guiga comprou para dormir sem passar frio em acampamentos (que na verdade é uma capa de sofá bem simples, mas pesadinha, e portanto não muito adequada para levar num alforje durante 60 km). Cada quilo de bagagem foi, afinal, muito bem utilizado – desde os quatro litros de água (úteis caso fosse um acampamento selvagem sem direito a água potável) até a meia dúzia de peças de roupa… Se bem que, para alguém capaz de passar vários dias sem banho, como a Guiga, roupa é, literalmente, o que menos se encontra na bagagem.

Últimos preparativos antes de voltar.

Ela tentou caprichar nos primeiros socorros e na comida. Teria tido mais sucesso se tivesse feito, como planejara, pastinhas de vegetais e pães torrados (ou não). Ela adora cozinhar e com o incentivo do Butina está disposta a preparar cardápios para “cicloacampamento”. Infelizmente, tudo foi organizado de última hora, evidenciando que a pressa é inimiga da refeição. Para se ter uma noção do quanto a Guiga pisou na bola com o menu da viagem, ela comprou dois pacotes de torradinhas no supermercado e enfiou cada um de um lado do colchonete, que estava preso por extensores no bagageiro. Não é preciso saber quanto é 1 + 1 para perceber que isso não daria certo. Um dos pacotes caiu na primeira descida no asfalto, ainda dentro de Porto Alegre, e foi percebido por um casal que passava de moto apontando para mim e para algo que ficou para trás. Eram as torradinhas, já viradas em alpiste no asfalto quente. O Butina salvou o segundo pacote de torradinhas colocando-o na mochila e, se não fosse isso, eles teriam que comer o feijão enlatado que a Guiga comprou para a hora da larica qualquer emergência.

Passei as duas noites amarrada ao pé da mesa que servia para reunir os campistas esfomeados, apenas ouvindo a Guiga e o Butina trocarem experiências de outros acampamentos, outras viagens, outras magrelas e outros ciclistas e cicloturistas. Apesar de a noite de sábado ter sido fria, foi na noite de domingo que eles emborcaram o litro inteiro de licor de jabuticaba, depois de comer a melhor janta campista da história: arroz requentado com tomate, pimentão vermelho, pepino em conserva, cubos de queijo colonial e extrato de tomate. Fica a dica: isso é bom demais, tanto que não sobrou sequer uma colherada para mim e para Nautilus. Apenas saboreamos o aroma dos pepinos, ficando com água na boca.

A segunda-feira era o dia de dizer adeus às vacas, rãs, perus, cachorros, peixes, galinhas, tartarugas, gatos, cobras e aranhas (muitas aranhas: se a Guiga não as espantasse da superfície do corpo, elas teriam feito um casulo de teia em torno de minha amada cicloturista) que circulavam pelo camping. É ruim despedir-se de bichinhos tão simpáticos (um filhote de cão gostou tanto de brincar com a Guiga que perdeu um dente de leite enquanto puxava a manga da camisa, deixando assustadoras manchas de sangue nos punhos da mesma), mas por outro lado é ótimo livrar-se do bicho homem que juntava-se em bandos nas proximidades da barraca da Guiga para beber cerveja e comer churrasco ao som do vanerão (rancheira, milonga, música gaudéria, ou sabe-se lá que diabos era aquilo) que tanto infernizava os ouvidos da Guiga e do Butina.

A alegria dos farofeiros!

Pegamos a estrada depois do almoço, ou melhor, da hora do almoço. A Guiga não estava com fome e o Butina não queria preparar comida só para ele, então ficou combinado que pararíamos no alambique para encher a pança. Novamente fui empurrada no trecho de areão que leva ao camping, e logo na primeira curva já foi possível pedalar de verdade. Uma coisa é certa: a viagem é bem melhor quando o trecho de estrada de chão vem antes do trecho de asfalto. Deu para sentir que a Guiga estava com todo o gás, pedalando tão rápido quanto permitiam os músculos de suas perninhas. Uma pequena parada para comer mariolas à sombra de um pé de jambolão foi crucial para seguir em frente, já que um pouco de açúcar e banana ajudam qualquer ciclista. E outra pequena parada logo adiante foi crucial para evitar o câncer de pele, pois o sol naquele começo de tarde estava maltratando os corpos que conduziam a mim e a Nautilus.

Eu e Nautilus apreciando e fazendo parte da paisagem.

Será que há tauras-berá lá dentro?

2010 já passou!

Chegamos finalmente ao alambique, às três horas da tarde, e enquanto o Butina almoçava adequadamente, a Guiga se contentou com um par de picolés, envergonhando a raça dos cicloturistas e desperdiçando o esforço de sua nutricionista em criar um cardápio saudável. A Guiga estava com um pacote de biscoitos cobertos de coco na mão, pronta para levá-lo a Porto Alegre, mas eu a impedi de cometer esse erro. Na primeira queda ao longo da estrada, os biscoitos sofreriam o mesmo trágico destino das torradinhas perdidas no asfalto: farelo e pó.

Nautilus fazendo pose com o Butina.

Logo encontramos o asfalto, o marco de entrada de Itapuã e os motoristas ora apressados, ora vagarentos – porém respeitosos pelo menos fora do perímetro urbano da Capital do Inferno. Nautilus já havia me alertado de que bastaria chegar ao asfalto para “comer pneu”, nas palavras do Butina, e isso de fato aconteceu logo que paramos para a calibragem. Nautilus foi na frente e ditou o ritmo: vamos em frente, que atrás vem gente! O Butina pedalou como se não houvesse amanhã, prevendo que chegaríamos em Porto Alegre às 20 h, e a Guiga, por força maior, não pareceu fazer tanto esforço para acompanhá-lo comigo. No fim das contas, minha preocupação era chegar à cidade antes que o céu exibisse seu lado obscuro, pois a Guiga fez o favor de perder pelo caminho o pisca traseiro, comprado na véspera da viagem. Além disso, ela ainda não deu um jeito num farol para iluminar meu caminho, e a gambiarra que fez com uma lanterna de cabeça presa à bolsa de guidão foi um fracasso.

Até a próxima, Itapuã!

Chegamos à casa da Nautilus às 19 h, depois de passar por várias subidas e descidas (descidas no asfalto, à noite, com poucos carros atrapalhando a pista – não tem preço). Eu ainda tinha que chegar à casa da Guiga, ou seja, enfrentar mais uns 20 km de caos urbano até a zona norte da cidade. Paramos no Barra Shopping para que a Guiga desse notícias à família, afinal nunca se sabe se o cicloturista voltará para casa – se sobreviverá às costelas de vaca do caminho, ou se perderá a vida atropelado por um ônibus à luz dos postes de luz das avenidas de Porto Alegre. Como alegria de pobre dura pouco, logo ao sair do Barra Shopping a rede elétrica da cidade provou sua eficiência deixando totalmente escuro todo o trecho que beira o lago Guaíba entre o museu Iberê Camargo e o shopping Praia de Belas. Vocês têm noção do que é isso? São vários quilômetros pedalando num terreno incerto (variando entre grama, cascalho, areia, chão batido, pedras grandes e, finalmente, ciclovia), absurdamente escuro, em sentido contrário ao dos automóveis. Cada carro parecia direcionar o farol alto bem aos olhos da Guiga, tornando sua visão tão ruim quanto o terreno onde eu rodava. E quem é capaz de mensurar o medo de sermos tomadas de assalto por um vagabundo ou um grupo de vagabundos armados, querendo levar nossas mariolas?

Finalmente chegamos à avenida Ipiranga e daí em diante nada poderia ser mais apavorante do que a escuridão recém enfrentada. A não ser… Chuva. Mas a Guiga estava com as energias tão positivas, que os pingos que caíam acabaram evaporando antes de tocar o capacete da Guiga, então deu tudo certo até chegarmos em casa. Só faltava um desafio para completar a viagem: caber no elevador. A Guiga se mudou para um prédio e depende de elevadores para chegar em casa, mas até esse carnaval eu ainda estava morando na garagem da casa onde ela morava antes, e nem sabia que teria que enfrentar elevadores daqui para frente. Empurra daqui, aperta de lá, dá uma reboladinha com o guidão e pimba, here we are, home, sweet home!

Ganhei um novo lar.

Só para não perder a prática: uma fotografia dos pés pós-pedalada.

Apesar de não se sentir cansada, a Guiga comeu por um batalhão nos dias seguintes à viagem. Com algumas mudanças em vista (rodas novas para mim, quem sabe?), vamos nos preparando para as próximas aventuras com minha amiga Nautilus e o experiente Butina. Espero que mais magrelas possam rodar com a gente por aí – e a Guiga quer acampamentos cada vez mais selvagens, segundo entendi, para ficar mais distante daqueles que quase sempre a envergonham enquanto representante da raça humana.

Informações sobre distância e velocidade: não há. Deu pau no meu ciclocomputador e isso definitivamente não me impediu de curtir a cicloviagem!

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3 respostas em “Cicloviagem para a Lagoa do Casamento

  1. Mas que cicloviagem show de roda Valentina! Parabéns! Não deixe mais a Guiga sair contigo sem a iluminação de segurança, é muito perigoso arriscar-se a rodar no escuro. Diga-lhe também que um macarrão com atum, tomate e cheiro verde é prático e uma delícia. Que não junte mais teias de aranhas em suas rodas, viu?! Beijos do Antigão.

  2. Valentina, a Guiga ficou muito tempo di vardi. Não deixe mais ela fazer isso. Arraste ela para passeios no final de semana sem precisar viajar, assim ela se empolgará para viagens futuras. Daqui a pouco você estará ultrapassando fronteiras estaduais.
    Abraços pra ti e pra ela.

  3. Engraçado, tive a mesma – ou pior – recepção no camping do Richard, também em Varzinha. Entrei para conhecer e fazer um lanche no mercadinho deles depois de duas horas e meia de pedal. O proprietário perguntou o que eu estava fazendo ali, que ali era uma propriedade privada, que não deveria ter entrado e que eles vivem de turismo… fiquei confuso, pedi desculpas e saí pedalando 🙂 Meu Intel Inside não é tão bom.

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