Pedalada para o sítio Pé na Terra

Parece que voltamos em grande estilo. Para tirar de vez a poeira do blog, a Guiga resolveu fazer um passeio muito legal que foi praticamente uma declaração de amor à bicicleta. Fomos até o sítio Pé Na Terra, em Novo Hamburo – RS.

2 km to go.

2 km to go.

Novo Hamburgo não é longe de Porto Alegre, especialmente se você for de trem. Não foi o caso. Eu voltei do conserto na quinta-feira passada e a Guiga já aproveitou o feriadinho de hoje (dia do funcionário público em plena segunda-feira! Quanta sorte!) para me arrastar 50 km longe da capital gaúcha. Depois de vários dias chuvosos consecutivos, hoje o dia estava lindo, o sol estava radiante e os piores motoristas do mundo estavam de ressaca e não incomodaram muito.

A ideia era simplesmente sondar o caminho até o sítio Pé na Terra, pois parece que vão de bando para lá no próximo fim-de-semana. Ontem, a Guiga fez um mapa a partir do Google Maps. Mas o sono conduz a mente a criações absurdas como isto:

Mapa

Mapa sem escalas, sem qualquer semelhança com a realidade e obviamente sem muita utilidade!

Depois de um mapa assim, só restava mesmo uma boa noite de descanso.

Hoje de manhã, Guiga acordou bem cedinho e ainda tinha coisas para organizar. Ela inventou de levar peso em alforges, porque ela gosta de sofrer pretende fazer uma viagem mais longa assim que for possível, e isso implica carregar muito peso por muitos quilômetros – é bom estar preparado. Assim, enfiou saco de dormir, produtos de higiene e alguns utensílios de cozinha de camping num dos alforges, deixando o outro livre para 3 litros de água, um caderno e comida. Esses últimos itens ela não tinha, de modo que teve que passar no supermercado antes de pegar a estrada.

Tudo em seu devido lugar (e faltando certas coisas: a caramanhola que fora descartada porque quebrou, a lanterna traseira que era mutante e se autodestruiu…), hora de botar o pé na estrada, rumo ao Pé na Terra. Eram 9:00 quando a aventura começou. A empolgação não era pouca, e a Guiga pedalava a toda velocidade no início da jornada. O caminho até o aeroporto era conhecido, afinal a Guiga adora sair voando de vassoura de avião seja lá pra onde for.

Até que chegamos ao primeiro checkpoint, o Pepsi On Stage. Passamos pelo monumento do Laçador, cartão-postal de Porto Alegre, e dona Guiga Herege não me deixou tirar foto com a estátua. Seguimos reto até quase entrar em Canoas, e veio o primeiro empecilho. Pegamos a pista errada e quase não conseguimos atravessar para o acostamento na região do retorno da BR-386. Um horror, muito movimentado. Foi só a primeira impressão de como era pedalar na temida BR-116.

Bueiros em Canoas

Perfeito para um tropeção.

No fim, deu para atravessar e seguir pelo acostamento, por onde cruzamos Canoas. Nunca vi cidade mais relaxada! Os bueiros à direita da pista eram muito tenebrosos, os motoristas não tinham qualquer respeito uns pelos outros (quanto mais pelos ciclistas, que eram raros), o barulho de tudo era insuportável, uma senhora sem noção nos atirou uma “varrida” de água sanitária enquanto limpava a calçada… E o pior de tudo foi a poluição! Vocês já ouviram falar em “partículas sólidas suspensas no ar”? Em Canoas elas eram visíveis a olho nu, mesmo usando óculos escuros.

Guiga já estava quase cega de tanto ver sujeira voando, até que pensou “caramba, essa cidade não termina nunca, não sei onde estou”. Olhou para o lado e pimba! Reparem no nome da rua:

Será magia, miragem, milagre? Será mistério? (Lulu Santos, "Sereia")

Será magia, miragem, milagre? Será mistério? (Lulu Santos, “Sereia”)

Reza a lenda que os animais da Austrália são todos peçonhentos, o que explica a misteriosa picada que a Guiga levou no pé ao pisar nesse canteiro de grama. Foram alguns bons minutos de coceira, cuja cura veio com a distração do passeio.

Checkpoint! Fail.

Checkpoint! Fail.

Você está em Esteio

Eu percebi que estou em Esteio!

Depois de cruzar a tumultuada Canoas, passamos por Esteio. O contraste com Canoas era imenso. Esteio é silenciosa e simpática. O engraçado é que, depois de Esteio, não há qualquer marco divisório entre uma cidade e outra. Quando vimos, estávamos em São Leopoldo, o nosso terceiro checkpoint. Não era para termos passado pelo Zoológico de Sapucaia (o segundo checkpoint)? Pois é, o Zoo ficava na BR-116. E foi então que tomei o primeiro susto: cacilda, o passeio nem começou e a Guiga já se perdeu! É nisso que dá fazer o mapa do trajeto à meia-noite na véspera da pedalada. Para pegar a BR-116, deveríamos ter entrado à esquerda em Canoas. Passamos reto por essa entrada, e acabamos seguindo exatamente o trajeto do trem, que passa próximo ao centro de cada uma dessas cidadezinhas da Grande Porto Alegre.

De repente, São Leopoldo.

De repente, São Leopoldo.

Em São Leopoldo é que começava a missão de sondagem da estrada até o sítio Pé na Terra. Pegamos as avenidas que a Guiga tinha visto no Google Maps na véspera, e logo na primeira uma subida ameaçou estragar tudo. E a Guiga, aquela anta, parece até que esqueceu a função das minhas marchas. Praticamente não trocou. Enfim, depois eu dei uns cascudos nela e fiz reduzir a quase zero para subir as lombas mais enjoadas.

Estamos perto! Só que não.

Estamos perto! Só que não.

Mais uma vez, a continuidade da urbanização entre os municípios tornou o pórtico de Lomba Grande uma agradável surpresa. “Estamos perto!”, pensei. Ah, se eu soubesse o que nos aguardava nos próximos quilômetros. Quem mandou confiar no mapa sem escalas da Guiga?

Pelo menos em Lomba Grande o movimento de ônibus e caminhões era menor do que em São Leopoldo. O acostamento, péssimo – quando não inexistente – era ornado por profundos buracos feitos especialmente para tornar a vida de qualquer ciclista uma aventura na lua, cheia de crateras. Somam-se a isso as ladeiras. As grandes lombas do interior de Novo Hamburgo.

Quando a Guiga sentiu que estava definitivamente perdida e que havia perdido a entrada à direita que levava até o sítio, voltou uns duzentos metros e perguntou num posto de gasolina o que fazer para chegar até o Pé na Terra. O frentista foi muito atencioso e explicou tudo com detalhes. Eram tantos detalhes que a Guiga não pedalou 1 quilômetro antes de se sentir perdida novamente. Era muita informação: cuida a rua aqui, o posto lá, os postes de alta tensão e o centrinho. Nada disso havia aparecido… Até que a Guiga se arriscou a pedir informações de novo, numa agropecuária no centro de Lomba Grande, e a moça explicou tudo quase com as mesmas palavras que o frentista. Ufa, estávamos no caminho certo. Mas era um senhor caminho, que não terminava nunca!

Quando a principal rua do centrinho de Lomba Grande finalmente terminou, havia duas opções de caminho a seguir: direita e esquerda. Bem no meio, uma placa indicava o sentido do nosso destino final. O sítio estava a 1800 metros, à direita. Aleluia, irmãos! Agora, sim, estamos perto.

Desce, sobe, papa poeira e não derrapa.

Desce, sobe, papa poeira e não derrapa.

O destino estava próximo, mas o caminho era desafiador. Até que enfim o asfalto terminou e dali para a frente seria só emoção. Sobe, desce, sobe, desce… Nas subidas, podíamos ver as lindas paisagens em tons de verde que compunham os horizontes da região. Nas descidas, a emoção era segurar o freio e não olhar para trás, nem para os lados, ou até mesmo fechar os olhos para descer reto sem derrapar nos cascalhos nem capotar sobre as costelas de vaca. A Guiga estava se achando A Cicloturista Hardcore, mas mal sabe ela que as estradas por aí são muito, muito piores. É bom que ela esteja bem treinadinha se quiser ir mais longe.

As subidas e descidas nessa estrada de chão desviaram tanto a atenção da Guiga que ela quase passou reto pela entrada do sítio. Missão completa! Encontramos o sítio, sobrevivemos, Guiga mandou lembranças à família e pronto, hora de ir embora.

Lugar delicioso.

Lugar delicioso.

Exatamente às duas horas da tarde, bateu aquela fome e a Guiga “almoçou” uns palitinhos de queijo numa parada de ônibus, já em São Leopoldo. Dali, seguimos até a estação de trem e foi de trem que voltamos a Porto Alegre. Não por preguiça, mas por comodismo: havia mais pendências para resolver em casa, então quanto mais cedo voltar, melhor. E a ansiedade da Guiga estava atingindo níveis insuportáveis porque uma encomenda para mim estava para chegar hoje.

Em casa… Surpresa! Chegaram pelo correio: alforges novos, um raro streamer de 3 litros da Deuter, uma lona de camping e extensores para prender apetrechos no meu bagageiro. Quase tudo pronto para a grande viagem, seja quando for.

  • Duração do passeio: 4h 24min
  • Velocidade média: 16,5 km/h
  • Velocidade máxima: 43,7 km/h (longe dos cascalhos derrapantes)
  • Distância percorrida: 73,09 km (exatos 50 km de ida, e o retorno foi só até a estação de trem de São Leopoldo)
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10 respostas em “Pedalada para o sítio Pé na Terra

  1. Tu é mesmo surpreendente… Adorei o post,
    Te adoro sua danada!!!! Curti demais… Domingo… Vamos todos…
    rsrs.

    Bjão do Roger.

    • Sim, Roger! Domingo as magrelas vão se juntar, rumo ao Pé na Terra de novo. No nosso caso, vai ser “Pneu na Terra”, hehehe!
      Beijão!

  2. Mas que retorno magnífico, Valentina! Parabéns pelo passeio e pelos novos apetrechos que chegaram! Cicloviagem longa… fiquei me perguntando prá onde será?
    Mas tudo bem, desde já dico no aguardo desse próximo relato. E que venha acompanhado de muitas e belas fotos!

    • E aí, Antigão! Tudo joia?
      A tal da viagem longa é de Porto Alegre a Florianópolis. Desde que nasci a Guiga fala nessa viagem, mas nunca deu certo e infelizmente os desestímulos são muito mais numerosos e intensos do que os estímulos. Até lá, continuamos com os passeios curtos para os “interiores” próximos da capital. É dar passos curtos para saber dar um salto quando chegar a hora! 😀
      Abração!

  3. Demais o relato, me ri muito por conhecer o caminho entre Porto Alegre até Lomba Grande, passou por onde moro, em Esteio, e teve sorte ao “se perder” passando por dentro de Esteio e Sapucaia, porque o trecho da BR-116 de Esteio a São Leopoldo é bem tenebroso e tem a famosa vila Pedreira em Esteio, além das obras em Sapucaia do Sul.

    Quanto a viagem de Porto Alegre a Floripa, vale muito a pena ir, já fiz o caminho inverso, partindo de Balneário Camboriú para Canoas, agora a próxima longa será de Novo Hamburgo a Floripa, com alguns amigos.

    E parabéns pelos novos presentes, e diz pra Guiga, que se precisar de alguma ajuda para saber o que se tem no caminho estamos aí pra ajudar.

  4. Mal conheço o seu blog mais já gostei. Obrigado por compartilhar suas viagem com agente, com certeza me incentivou a começar minhas viagens. Gostaria de uma ajuda sua, estou pesquisando um alforge, oque você achou desse Alto Estilo? Obrigado e parabéns pelo blog.

    • Oi Pedro, tudo bom? Que ótimo ter mais um leitor amigo por aqui! Fico feliz que tenha gostado das aventuras sobre duas rodas! Eu gostei muito dos Alto Estilo, são resistentes e práticos. Porém acabei comprando um da Curtlo porque tinha alça de mochila, então alterno conforme a necessidade (se não vou tirar o alforge do bagageiro, uso os Alto Estilo, se vou para algum lugar onde vou deixar a bici sozinha e preciso tirar os alforges, levo os Curtlo). Espero ter te ajudado, e qualquer coisa prende o grito! Grande abraço – Valentina e Guiga

      • Pedro,

        alforges podemos é um assunto um pouco polêmico, já vi gente defendendo a ideia de quanto maior a capacidade melhor, ou que apenas um conjunto já basta, mas bem como a Guiga falou, bom ter dois pares para necessidades diferentes.

        Eu tenho dois pares de alforges, um Deuter UniPack, 38L, e de encaixe, excelentes para viagens. Também adquiri um alforges da Curtlo, de 24L e fixado com velcro, bom desses que tem alça tira-colo e de fácil fixação no bagageiro. Sem contar com dois modelos de alforges da bullbiker que ficam em cima do bagageiro. Vou alternando o uso deles conforme a necessidade da pedalada, o que vou levar e quanto tempo vou ficar na estrada.

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