De bike para o Morrostock 2012

No último post, alimentei as expectativas de ser finalmente retirada da garagem, rumo ao interior de Sapiranga. Não era mentira da Guiga, nós realmente fomos. Rock’n’roll, gente se libertando e algumas magrelas perdidas no tempo e no espaço. Entre elas, eu, atada a um poste.

Chega aí, cachorrão.

O momento de viajar não podia ter sido melhor. Depois da véspera do feriado (era dia das crianças), o trânsito por aí já estava mais tranquilo. Depois de meses de frio, chuva, ventos, raios e trovões, o dia estava ensolarado (e a Guiga, vocês sabem, é mais réptil que humano e não vive sem sol. Nem pedalando ela prefere a noite. Vai entender…). Depois de muito mendigar companhia, encontrou o Rafa, que também pedala, viaja e curte as bandas do Morrostock.

Com tudo em cima pra encarar a estrada.

No dia da viagem, a Guiga passou a manhã inteira arrumando mochilas no meu bagageiro como se fossem alforges. Acho que todo mundo que já viajou com bagagem na bicicleta passou por isso. No meu caso, a estreia foi com nada menos que quinze quilos de penduricalhos! Uma mochila de roupas, saco de dormir e artigos de higiene dum lado, uma mochila de comida do outro e, por cima de tudo, uma sacola com um cobertor (ninguém é de ferro, ainda mais no alto do morro), mais a barraca e o isolante térmico. Tinha uma caneca pendurada – pagando vale de mochileiro, sempre. E tudo estava muito bem preso com extensores comprados na véspera no Lojão Oba Oba. Pelo nome, vocês imaginam que não se trata de uma loja especializada em bikes, certo? Exato! Era uma loja 1,99. Os extensores tinham todo jeito de que iriam arrebentar ao primeiro solavanco. Graças a deus isso não aconteceu nem na ida, nem na volta.

Esperando o meu marido, o trem.

Nunca vi cicloturista querer tantas mordomias como a Guiga. Pegar um trem para cortar o caminho praticamente pela metade foi de partir o pedivela. Mas foi o que ela fez. O trem vai de Porto Alegre, onde moro, até Novo Hamburgo, cidade distante menos de 30 km de Porto Alegre. De NH até o destino final, seriam mais uns 30 km.

A rota foi a seguinte: BR-116 (9 km), RS-239 (11,2 km), centro de Sapiranga até estrada em Dois Irmãos (8,1 km), estradinha de chão até o Sítio Picada Verão (4,8 km). Tão simples. Seria mais simples ainda se, a partir da zona rural de Sapiranga, o caminho não fosse uma constante subida.

Guiga e eu na BR-101, em Novo Hamburgo (RS). Já sabemos como chegar em Taquara…

Rodar na BR-116 (nesse curto trecho) e na RS-239 foi uma delícia. Guiga e Rafa foram conversando o tempo todo, os outros motoristas estavam respeitosos e bateu aquela emoção ao passar “de grátis” por um pedágio. Em Sapiranga, eles quase se perderam. Havia um mapa, que a Guiga fizera à mão a partir do Google Maps, mas não ajudou tanto assim quando eles ficaram em dúvida sobre o caminho. Se não fosse a intuição da Guiga, acho que teríamos todos chegado sãos e salvos em Campo Bom, na direção oposta.

Aqui já é a RS-239. Estamos perto! (Doce ilusão. Se as placas erram distâncias quando mostram números, imagine quando não mostram.)

Encontramos, então, um asfalto novo e lisinho, no meio do nada. Aquela estrada, haviam dito, era feita para veículos pesados porque era menos íngreme que o caminho roots sugerido pela equipe do Morrostock aos motoristas. Para nossa alegria, havia poucos carros e paisagens muito bonitas.

Asfalto cheirando a piche, cortando o verde da região. Rafa na sua magrelita.

Sim, o Rafa foi com aquela mochila nas costas. Mesmo apoiada sobre a bagagem do bagageiro, era um peso e tanto recaindo nos ombros, detonando as costas. No retorno a Porto Alegre, as coisas mudaram. Aleluia!

Essa foto aí não mostra nada do que os pobres-diabos tiveram que aguentar até o trecho em estrada de chão. Havia partes tão íngremes, mas tão íngremes, que a Guiga ia me empurrando. Quando cansava de empurrar por um lado, empurrava pelo outro. Morro acima, percorrendo a pé a “trilha de asfalto”, carregando bicicletas e bagagem, quase que a viagem foi interrompida por um acampamento que duraria até o dia seguinte. Esse delírio incoerente e inconsequente foi varrido para o breu do esquecimento porque a vontade de chegar ao Morrostock ainda naquele dia era maior do que qualquer coisa no mundo.

Só mais 4 km!

Quando a estrada de asfalto terminou, a estrada de chão nos recebeu com boas-vindas que não podiam ter sido mais adequadas: um trecho íngreme de uns 30 metros era só uma “palhinha” do que estava por vir. Com rolling stones pelo caminho, chegar a esse singelo mirante não foi tarefa fácil. Guiga quase caiu umas duas vezes (em menos de 30 metros) e quase me levou junto. E depois disso, foi só alegria na estradinha de chão. À medida que o número de quilômetros rodados sobre pedregulhos crescia, a Guiga parecia se acostumar ao tipo de estrada. Quem saía quebrada era eu, que não tenho suspensão!

Ao longe, Sapiranga? Novo Hamburo? Sei lá, já parecíamos estar longe de tudo. Sem sinal no celular (nem da Vivo!), sem saber se chegaríamos ao Morrostock antes do anoitecer, era pura adrenalina.

Cerca de 2 km antes de chegar, já ouvíamos a música do Morrostock. Fuscas passavam buzinando em apoio moral à dupla de ciclo-farrapos. Lá dentro, logo encontraram a Guiga e por dois dias ela esqueceu da minha existência. Pegou a pulseirinha, armou a barraca, vendeu uns biscoitos veganos e me deixou presa num poste ao lado do seu acampamento de sapatonas. Isso foi ótimo, pois eu precisava mesmo descansar.

E a Guiga, pelo visto, também descansou. Olha que lindo o lugar:

Cachoeira perdida na propriedade privada. Gente nua se banhando.

A Guiga não ia beber. Por algum motivo obscuro, no último dia de Morrostock ela parecia sofrer de ressaca. Cheguei a suspeitar que ela fosse apelar a um reboque, mas para nossa alegria ela encarou a pedalada de volta. Pelo menos uns 30 km até encontrar uma estação de trem. Tudo de novo.

Aviso aos navegantes: desmatamento à vista. Eucaliptos por toda parte (a Guiga fez questão de excluí-los da foto: era uma cena ambientalmente ofensiva).

Estamos indo de volta pra casa.

Arrumar a bagagem já foi mais fácil e menos demorado. Pedalar logo depois de comer, às 14:30, não foi a melhor ideia, mas não havia outra opção senão esperar o almoço ficar pronto. Pedalar a base de lanchinho não dá.

O retorno pareceu mais lento. Eu já estava meio torta, havia o movimento de fim de feriadão, e a Guiga parecia um bicho-preguiça pedalando, de tão lerda. A subida interminável que foi feita em grande parte a pé, na ida, agora era uma descida onde o Rafa conseguiu uns 5 minutos de felicidade extrema (quase o nirvana, eu presumo). Já a Guiga… No máximo, conseguiu uns 15 minutos de vergonha. Desceu no freio, quase me deixou sem pastilhas, e ainda deixou o coitado do Rafa esperando lá embaixo. E eu não tenho ideia de qual foi a velocidade máxima atingida, pois a Guiga fez questão de zerar o velocímetro antes da viagem e não havia regulado a circunferência da roda.

Para não perder o costume, o Rafa caiu um tombo já na altura da cidade de São Leopoldo, em plena BR-116. Foi ajeitar o capacete, alguma coisa trancou no espelho, o que fez girar o guidão e pimba! Joelho esfolado e cacos de espelho ao redor da magrela. A Guiga havia desistido de levar a maleta completa de primeiros socorros porque “alguém” (o próprio Rafa) zombou dela por carregar mais remédios do que roupas. No fim das contas, não havia sequer um band-aid para cobrir o joelho furado do Rafa. Lição do dia: SEMPRE carregar todos os primeiros-socorros que puder. Vale até Sedilax, remédio de vovô, para aliviar dores nas juntas.

Íamos voltar pedalando até Porto Alegre, sem cortar caminho usando o trem, mas depois desse imprevisto foi melhor pegar o trem. Olha que beleza, o vagão quase vazio.

Vagão vazio. Vagas para ciclistas.

E a Guiga também não podia perder um velho costume: pedalar usando papetes. Depois de três dias de calor e duas noites de frio, sempre pulando e cantando, tomando banho só de cachoeira, sem pentear aquele bizonho cabelo ruivo que a deixa com aspecto de palito de fósforo, foi assim que os pés da Guiga pisaram em casa:

Isso aí vai dar chulé…

E eu fui novamente escorada na parede da garagem. Encerrei o dia ouvindo promessas de que minha parceira voltaria a me levar para passeios dentro e fora da cidade. Parece que existe um empecilho chamado “TCC” atrasando a vida social da Guiga, mas isso vai terminar logo e vou voltar a ser a paixão nº 1 dessa guria.

Pra quem quiser ter uma ideia do tipo de música que tocou no Morrostock, recomendo essa seleção: #Morro2012 Mixtape

Pra quem não tem ideia do que é o Morrostock e ficou curioso, sugiro o site deles: Morrostock 2012

Anúncios

2 respostas em “De bike para o Morrostock 2012

  1. Nunca reparei que a Guiga é ruiva, e tem mais, tem uma foto ali que da pra ver todo o potencial das pernocas da moça, ta ficando fortinha! rs rs!
    Massa o passeio/viagem, por que foi um meio termo. Pegar trem, de bike, é uma coisa que ainda esta nos meus planos, a bela Ponta Grossa não conta nem com trem de passageiro ainda.
    Mas fato é, que todo esse passeio foi diferente neh, papetes imundas, banho de cachoeira (nu) e festival de música é bem piração, mas é algo que me agrada bastante. Pena que quando tem festival de música aqui por perto é em Curitiba e não é muito legal deixar uma bike num camping que tem 2000 gentes desconhecidas, nesse caso é melhor ir de carro. Mas que eu tenho vontade, eu tenho.

    Grande Beijo pras Duas!!

    • E aí Gabi!
      Sim, essa viagem foi especial por causa do festival. Infelizmente o trem daqui não é daqueles cheios de emoção com abismos, túneis e belas vistas. É totalmente urbano. Mas felizmente nos ajudou, principalmente na volta, quando o Rafa já estava com o joelho machucado e eu toda dolorida. A Valentina ficou meio dura, acho que por causa das estradas de chão – deve ter descentrado ou algo assim. Então desde então estou sem pedalar! Mas é verão, vou só esperar janeiro chegar para fazer os consertos necessários e pegar estrada, nem que seja pra passar o fim-de-semana.
      Um beijão!
      Guiga

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s