Cicloturismo urbano

Será possível? Será que a Guiga deu pra inventar moda, agora? Depois do lance dos coturnos, ela começou a interpretar suas rotas diárias como pequenas viagens sobre duas rodas. Não pela distância, mas pelo planejamento que essas pedaladas requerem. Afinal, pedalar pro trabalho, pra faculdade, pra academia, pra bicicletaria e pra uma infinidade de lugares diferentes no mesmo dia é mais complicado do que parece.

Quem já viajou de bicicleta sabe que um planejamento é indispensável, mesmo que o plano seja aberto ao que der e vier. A gente analisa vários fatores simultaneamente, pois uma coisa implica outra. Se definirmos quantos dias vamos ficar viajando e qual é a distância até o local de destino, temos o objetivo de pedalar X quilômetros por dia. Se definirmos que vamos acampar e levar comida para preparar (ao invés de ficar em hostel e se alimentar em restaurante), estaremos abdicando da leveza do cartão de crédito para encher enormes alforjes com tralhas de bushcraft. Vamos definindo uma coisa depois da outra, e no final temos um plano de viagem que acabamos descumprido porque sempre – sempre – ocorrem imprevistos que deixam a viagem ainda mais divertida.

E pedalar diariamente também exige um certo planejamento. Hoje, por exemplo, a Guiga chegou em casa desse jeito:

Até parece que vai muito longe, com esse monte de tralhas.

O conjunto completo (ciclista + mochila) estava pesando 54 kg. Isso é uma diferença de pelo menos 7 kg em relação ao peso da Guiga.

Sei que, em viagens de verdade, eu vou ter que aguentar muito peso no bagageiro, na bolsa de guidão e nas outras bolsinhas espalhadas pelo meu quadro. 7 kg todos os dias é quase nada. Se bem que o inverno aqui pelo sul do país é exigente em termos de roupas… Esse é o ponto principal do “planejamento cicloturístico diário” da Guiga. Roupas.

Variável nº 1: trabalho. Há roupas pra pedalar e há roupas pra trabalhar, e, na maioria das profissões, roupa de ciclista não é o uniforme mais adequado. Além disso, existe o fator “suor” pra reforçar a necessidade de trocar de roupa. Em função disso, metade da mochila da Guiga é preenchida com coisas que ela vai usar no trabalho:

  • 1 camiseta seca e cheirosa
  • 1 camisa toda amarrotada (é estilo), de manga comprida
  • 1 necessaire com lenços umedecidos, desodorante, toalhinha de microfibra, creme hidratante, itens de higiene pessoal e primeiros socorros (isso ocupa um bom espaço)

Variável nº 2: comida. A Guiga tem um controle nutricional muito flexível mas cheio de frescuras. Por exemplo, ela é vegetariana e se alimenta a cada três horas. Assim, precisa carregar pequenos lanches para ir comendo ao longo do dia (se pudesse, carregava uma fruteira completa):

  • 1 pote com o almoço (“marmita” – para indignar quem tem horror a pobre)
  • 1 pote com biscoitos integrais e mariolas
  • 3 talheres
  • 2 litros de água (1 garrafa de 1,5 L e 1 caramanhola de 500 mL)

Lembrando que o transporte de alimentos orgânicos exige muito cuidado! Bananas amadurecem, tomates explodem, vegetais murcham, biscoitos quebram, maçãs apodrecem, etc. A mochila da Guiga tem bolsinhos laterais feitos em tela, onde ela carrega bananas de vez em quando.

Variável nº 3: lugares para ir durante o dia.

  • Pra faculdade, a Guiga dispensa as comidas e carrega coisas que não fazem volume nem peso (conclusão: a faculdade é o destino perfeito para quem pedala todos os dias): caderno, livros, xerox, estojo.
  • Pra academia, apenas o que é realmente necessário vai preso no bagageiro: o quimono.
  • Pro banco, a Guiga não vai de bicicleta, pois carrega muitos metais que apitam na porta detectora: chaves, cinto, celular, moedas, etc. (sem contar os metais da necessaire, entre os quais até Gillettes brotam de vez em quando).
  • Pra loja: seja lá do que for a loja, é preciso ter algum lugar (de preferência visível) onde eu estacione com segurança. E seja lá o que a Guiga for comprar, é bom ter uns extensores para prender no bagageiro, ou carregar a mochila vazia para encher de compras.

Variável nº 4: trajeto. Não adianta carregar objetos quebráveis na mochila se o trajeto for cheio de buracos, bueiros, lixo, sulcos, etc. E não adianta colocar 20 kg na mochila se o trajeto incluir muitas subidas. Não adianta imaginar que não vai se atrasar ao pedalar em horário de pico, nas ruas mais movimentadas. Então, ter uma noção de qual será o trajeto do dia é importante para saber o que será possível fazer ou não.

Variável nº 5: imprevistos. Pode ser que fure um pneu, que caia um temporal, que dê fome, que as atividades atrasem. O ideal é antecipar essas situações e andar prevenido. Isso significa, quase sempre, carregar um peso extra (ferramentas, kit remendo, guarda-chuva, comida, água…). E, também, é bom sempre conferir o estado da bicicleta antes de sair pedalando. A Guiga já saiu com uma pastilha de freio rachada (que quebrou quando foi substituída), já saiu sem campainha, já perdeu o pisca-alerta no meio do caminho… E nessas situações, teve um cuidado redobrado para não sofrer nem provocar acidentes de trânsito.

Variável nº 6: roupas do corpo. Durante a pedalada, a Guiga prioriza o conforto (e mesmo assim, no dia-a-dia não usa aquelas bermudas com forro) e se veste conforme a temperatura ambiente (que muda conforme a região da cidade) e a praticidade da roupa. Nos dias mais frios, pedala com a mesma calça que vai usar ao longo do dia, sempre usando uma bermuda justa por baixo. Nesses terríveis dias frios, uma blusa justa “suga” o suor das costas, um casaco de tecido sintético protege do frio (cobre até o pescoço) e um corta-vento faz o que o próprio nome diz. Outra coisa chata de ter que vestir é a tal da touca ninja, que a Guiga ainda não comprou (um gorro comum já faz diferença).

Dica de mulher pra mulher: lembre-se de que ninguém vai espiar sua roupa de baixo enquanto você pedala, então use cueca! As calcinhas são terrivelmente desconfortáveis (não cometa o pecado de pedalar de lingerie, por favor. Isso é um crime no mundo das magrelas).

O que é invariável, nisso tudo, são os acessórios básicos de segurança e demais itens específicos para ciclistas:

  • Capacete
  • Óculos (com lentes cambiáveis – com esse horrível mormaço que predomina no inverno, nem adianta usar lente escura)
  • Luvas (que, em breve, serão substituídas por luvas inteiras – e não com os dedinhos de fora)
  • Ciclocomputador
  • Pisca-alerta
  • Bomba de ar
  • Caramanhola

Mais um item importante a considerar: espaço livre para tralhas. Planejando como vai ocupar cada milímetro cúbico e como vai distribuir cada miligrama na mochila, é preciso considerar que, em algum momento, você vai precisar guardar suas roupas e acessórios de ciclista lá dentro. É bom ter um espacinho livre na mochila pra colocar tudo e conseguir prender o capacete no exterior da mochila.

Depois disso tudo, dá pra entender por quê a Guiga considera que seu dia-a-dia é uma viagem. Tendo que pensar em que roupa vai usar, que comida vai ingerir, quanta água vai beber, quantas lombas vai subir… É como planejar uma mini viagem. Com o tempo, esse planejamento vira rotina, vai ficando cada vez mais fácil e automático, e acaba nem tomando muito tempo do ciclista.

Quando eu ainda não existia, uma das coisas que impedia que a Guiga usasse uma bicicleta como meio de transporte era a preguiça de pensar em tantos detalhes. Preguiça de procurar uma solução para enfrentar chuva, por exemplo. É mais fácil dizer “é impossível pedalar com chuva”. Hoje em dia ela sabe que impossível não é, mas mesmo assim é muito chato e perigoso; isso se resolve com uma mudança de ponto de vista (tchau, preguiça) e, é claro, com um planejamento (tchau, dificuldade).

Pare uns minutos do seu tempo, pense em que situações da sua rotina você conseguiria incluir uma bicicleta, deixe a preguiça de lado e bem-vindo ao cicloturismo urbano.

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5 respostas em “Cicloturismo urbano

  1. Hmmm, e de repente encontro o blog Cicloturista Urbano na internet! A proposta é diferente do “cicloturismo urbano” que descrevi aqui, mas é bacana, cheio de histórias e fotos! Já foi pra lista de “blogs de cicloturistas”.

  2. Eu adorei as idéias, já conhecia quase todas. O cuturno foi o que mais me surpreendeu, mas eu ainda prefiro o clip, agiliza muito o pedal (é questão de gosto). Eu queria conseguir usar a bike pra tudo assim como você faz, mas a questão de horários acaba com minhas possibilidades. Faço medicina e as vezes tenho 2 aulas em dois hospitais que ficam a 10km de distância com intervalo de 30 minutos. Com os morros e falta de estrutura cicloviaria nessa cidade chamada Ponta Grossa, é impossível se chegar em tempo e condições de conversar com paciente. Mas um dia essa rotina de aulas espalhadas acabam e a bike retoma seu lugar, é isso que eu espero!

    • E aí, Gabriel! É verdade, alguns horários que deveriam facilitar nossa vida acabam atrapalhando. Enquanto não inventarem um teletransporte, será complicado ir de um compromisso a outro em pouco tempo – mesmo de carro, pois engarrafamentos surgem onde menos esperamos! Logo logo tu vais te formar médico e vais poder escolher em que horários quer trabalhar! A falta de estrutura cicloviária infelizmente é uma realidade em muitos lugares, mas é apenas 1 dos vários fatores que nos impedem de pedalar com tranquilidade. Espero que pelo menos o clima em Ponta Grossa seja melhor (mais quente) do que em Porto Alegre!

      Grande abraço e ótimas pedaladas!

      • Nossa, dias que eu não entrava aqui, e pelo visto ta meio largadinho o blog. Acontece. Pois bem o clima aqui não ajuda também, no frio é bastante frio já que estamos na mesma altura que Curitiba, e os ventos e chuvas incomodam um tanto, mas nada que torne os pedais impossíveis. Mande notícias.

      • Oi Gabi!!
        É verdade, não temos feito muitos passeios porque Dona Guiga anda com muitos compromissos no fim-de-semana e acaba deixando a pedalada só pra transporte diário mesmo. (Parece que as pedaladas foram trocadas por um tal de TCC.)
        E infelizmente as notícias se resumiriam em “pequenos acidentes no trânsito” e “manutenção”.
        Assim que rolar alguma aventura ou um passeio mais legal, com certeza virá relato pro blog!
        Abração!

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