Lami, Itapuã e… Não, Varzinha não.

Hoje rolou o segundo passeio do ano, e vou te contar. Fomos longe. Depois de encarar tanto chão, qualquer outro lugar dentro de Porto Alegre é logo ali. A ideia era ir até a praia da Varzinha, mas na prática foi quase lá! No caminho, a curtição foi em Itapuã, Lami e nuns bairros mais queridos da cidade.

Tudo começou com a Simone, que falou tão bem da praia de Varzinha que a Guiga ficou com vontade de ir, mesmo que não fosse velejar ou praticar kite surf. Sem um destino definido para a pedalada de sábado, topou o desafio de encontrar a praia da Varzinha. Tentou convencer Deus e o mundo a ir junto, mas o único suicida interessado se manifestou tarde demais. Então partimos, apenas nós, para a missão de fazer pelo menos 100 km por dia.

Museu Iberê Camargo9h a Guiga aparece na garagem, com uns apetrechos para enfiar na bolsa de guidão, um litro e meio de água numa garrafa, a bermuda não-acolchoada e o mais curioso: papetes. Diz ela que queria testar os papetes e ver se poderia rodar longas distâncias sem precisar usar um tênis fechado com uma meia quente. Fungos entre os dedos nunca são bem-vindos.

Entre os apetrechos, havia mariolas e barras de cereal. “Vamos almoçar no caminho”, disse. Aham, Gui, pode crer. Seguimos o mesmo trajeto da primeira pedalada do ano, até Ipanema. Dessa vez o Iberê apareceu na foto!

Ipanema, num dia ensolarado como hoje, e sendo ainda de manhã… Parada estratégica para umas fotos. Descanso? Que nada. Só depois dos primeiros 50km. Ou seja, no Lami.

Ontem à noite, a Guiga fez uma rota com os nomes das principais ruas que deveria seguir até chegar na Varzinha. Com alguma ajuda do Google Maps, do Google Earth, de dicas soltas na internet e de sua memória extraordinária, ela anotou tudo num papelzinho e estreou o “map guide” da bolsa de guidão.

No mapa, o Lami não parecia tão distante. Seguimos pela Serraria, pedimos indicações às pessoas no meio do caminho e enfrentamos muito chão de asfalto esburacado, com acostamento de terra bem estreito. A Guiga estava com medo de andar nesse acostamento, então seguiu pelo asfalto (mal sabia ela…). Com tanta cratera, poderíamos afirmar que pisamos na Lua.

Quando apareceu a primeira estradinha de terra (fedorenta pra caramba), foi uma comemoração só. A Guiga ia cantando, e pedalando bem devagar porque qualquer movimento poderia causar uma derrapagem (mal sabia ela…).

A ansiedade de chegar ao Lami talvez tenha ajudado a tornar o caminho mais comprido. E a decepção com o Lami não foi uma emoção mais forte do que encarar todas aquelas estradas. Imagina, comemorar a existência de rodovias e ignorar uma praia cheia de gente comendo churrasco. Só pode ser lelé da cuca, essa Guiga.

Lá, ela perguntou por Itapuã e seguiu mais uma estradinha de terra. Ou, melhor, de areia. Depois apareceu a rodovia asfaltada (aleluia, irmãos!). Não sei como conseguimos chegar em Itapuã sem mapa. Itapuã não aparecia nunca e várias vezes a Guiga olhou o relógio pensando em voltar para casa, pois mais 10 km e seria muito tarde. Lógico que ela continuou. Não por 10, mas por uns 20 km, no mínimo.

Cabe aqui uma observação sobre unidades de medida: parece que, saindo das capitais estaduais, o povo simplesmente distorce as proporções dos quilômetros e inventa uma seqüência lógica dos números. Quando eles dizem 5 km, atenção, são 20. Quando você está diante da casa nº 2.539, imagina que a próxima (distante 1 km dali) seja algo em torno de 3.500. Nem se surpreenda se o número for 8.190. E se, depois do 8.190, aparecer a casa de número 1.200, esqueça tudo o que aprendeu na escola e siga seu GPS mental. Melhor ainda, invente um novo tipo de bússola e passe a usá-lo.

Para quem já estava se empolgando com os “vários” passeios do dia: na verdade nós só fomos até a entrada de Itapuã… Hehehe! A estrada da Varzinha era logo ali. Mas a praia propriamente dita, era no quinto dos infernos.

A estrada não era de chão batido, era de areia fofa. Cada carro que passava deixava pra trás uma nuvem de poeira tão grande que o pior dos ilusionistas faria sucesso desaparecendo no meio dela. Mas mesmo assim, estávamos indo para a Varzinha e nada iria nos impedir! Depois de 72 km rodados, desistir àquela altura seria uma vergonha. Mas não foi.

A estrada, além de presentear os ciclistas com infinitos quilômetros de areia fofa, era nada mais, nada menos do que uma ladeira disfarçada. Quando, depois de quase cair umas três vezes com as minhas chimbadas e derrapadas, a Guiga entrou numa curva acentuada que parecia ter um letreiro avisando “volte para casa, a estrada ainda é longa”, era hora de desistir da Varzinha. Três moças caminhando confirmaram a desilusão e lá fomos nós atrás de um alambique previamente identificado.

Enquanto dois litros de suco de laranja eram divididos entre a caramanhola e a garganta profunda da Guiga, apareceu um sujeito com vestes ciclísticas, puxando papo. Era o Márcio. Ele e seu amigo Paulo haviam vindo de carro até a Varzinha, de lá deram uma volta de bicicleta, para sondar a área, e acabaram parando no mesmo alambique para fazer uma boquinha. Pedalaram 34 km e ficaram impressionados com os 74 percorridos por nós até então. Até ofereceram uma carona (a Guiga devia mesmo estar com uma cara horrível nessa hora), mas nada de mordomias pra nós. Pedal vai, pedal vem.

Só então nós nos demos conta de que a highway to hell era uma enorme ladeira desde o início. Eu cheguei a rodar a 30 km/h por ali, descendo com emoção no areião. Um perigo. Mal sabíamos nós que a ida para a Varzinha seria um tormento. A vista lá do meio da estrada, no entanto, às vezes é maravilhosa.

O retorno foi feito exatamente pelo mesmo caminho. Pareceu mais rápido que a vinda. Para compensar, paramos mais, ficamos mais tempo em determinados locais para apreciar a vista, e vários trechos de subida foram feitos a pé – principalmente as subidinhas que, depois de 120 km rodados, eram muito casca grossa.

Paramos no Guarujá para comer mariolas, depois em um mirante muito charmoso apenas para apreciar a vista, e depois em Ipanema, para esticar as pernas e hidratar o corpitcho. Mais 15 km e a Guiga se enfiaria num chuveiro quente.

Considerando que a Guiga me empurrou ladeira acima a 5 km/h, por (juntando tudo) uns 3 km, acho até que pegamos boas velocidades nesse caminho. Sem amaldiçoar a Nilo Peçanha e sua subida desonrosa, a Guiga me empurrou de novo até a esquina com a Carlos Gomes. Para chegar em casa, apenas descidas alegres. Assim é fácil ser ciclista.

Imunda, com umas partes do corpo mais vermelhas do que bronzeadas (e as mãos mais brancas do que os lençóis da propaganda da Omo… Por causa das luvas), a Guiga chegou em casa sã e salva, tendo enfrentado 138 km em 8 horas e meia (praticamente uma lesma pedalando).

Conclusões do dia:

  • É possível ir para o litoral em um dia? Sim, considerando que aos 90 km a brincadeira começa a perder a graça. A fome aparece, a pressa também, e a bunda já não aguenta mais permanecer encostada em qualquer objeto.
  • É possível pedalar sobre areia fofa? Sim, desde que não haja ladeiras no meio do caminho. Na subida, dificulta tudo. Na descida, provoca derrapagens nada agradáveis.
  • É possível ficar sem almoço? Óbvio, comendo as coisas certas antes que bata a fome de verdade.
  • É possível pedalar 100 km com uma bermuda normal, sem forro de gel? Sim, mas… Dói.
  • É possível pedalar usando papetes? Sim. Os pés ficam imundos (como as pernas, os braços, o rosto… Estrada é isso), mas o arejamento compensa. Meias, tênis e sapatilhas, nunca mais.
  • É possível viajar sem mapa? Sim. Adorei a ideia. Mas não gostaria de arriscar em viagens maiores.
  • É possível viajar sozinho? Sim, mesmo que não seja a coisa mais divertida do mundo. Se bem que a liberdade que se tem para ir aonde quiser, e a autonomia para tomar decisões (e a maturidade para aceitar os próprios erros) são ótimas fontes de aprendizado.

E, por incrível que pareça, não passamos por grandes dificuldades como pneus furados, trocas de câmara, corrente quebrada, etc. Porém, assim que nos livramos da highway to hell, ao pararmos num posto para calibrar meus pneus, o frentista constatou que a roda traseira estava “descentralizada”. Ela só estava rodando por obrigação, pois o certo seria consertar isso logo e evitar a impressão de bicicleta pesada.

Bom, dessa vez não deu para chegar até a praia da Varzinha. Só para aproveitar que já estávamos longe, deveríamos ter seguido para a praia de Itapuã. Também não rolou. Então, Itapuã, nos aguarde. E Varzinha também. Um dia nós chegaremos lá! E quem quiser nos fazer companhia, por favor se manifeste.

Essa foi, inesperadamente, a grande pedalada de janeiro. As próximas pedaladas de 1 dia serão menores – segundo o que a Guiga prometeu a si mesma. E eu preciso de uma revisão urgente!

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13 respostas em “Lami, Itapuã e… Não, Varzinha não.

  1. O toque final foi a garrafa de agua no bagageiro!!! hahaha!! Muito massa!! Baita pedal!!! Grande 2012, com muitas pedaladas!!!

    • Hehehe! Eu ainda não tenho camelback (e tô avaliando se é realmente uma boa ideia), e como fiquei com receio de ficar sem água, acabei levando 150% a mais! Sabe como é, a gente passa dias sem comida, mas sem água não sobrevive por muito tempo. 😉

  2. Parabéns, meninas guerreiras! Esses ciclo-passeios, repletos de improvisos, são realmente a essência da aventura cicloturística.
    Sobre “quantos Km faltam para chegar em determinado lugar?”, nunca pergunte a um transeunte. Ele vai coçar a cabeça e dizer menos da metade da Km real.
    Adoro pedal solo! É bem isso que você disse: Autonomia total.
    Também adotei as papetes há uns tempos atrás. Pés sujérrimos agora fazem parte do pedal de cada dia.

    Grande abraço!

    • Sobre as papetes eu confesso que a ideia foi tua, Antigão! Já revirei teu blog. Hehehe! Nada como aprender com quem já passou por tudo estrada afora… Comigo não só os pés, mas também as pernas inteiras e principalmente o rosto voltaram imundos para casa. O sabonete não ajudou, precisei usar uma esponja no banho. Tô me divertindo até agora só de lembrar de tudo o que aproveitei ontem!

    • Parabéns pela iniciativa e relato. De fato, Bike sempre é 10, principalmente em picos tão bacanas como esses na zona sul de POA e em Viamão.
      Papete, costuma ser uma das escolhas (por aqui e fora do Brasil) em dias de calor, para bike, trekking, canoagem e outras tantas atividades na natureza. Agora, tem uns lances em relação ao seu uso com bikes: tenis ou sapatilhas protegem melhor os pés (dedinhos, dorso e laterais) em caso de acidentes (um simples tombinho ou mais do que isso), além de permitirem uma pedalada mais eficiente (satilhas com presilhas – pedais com engate), principalmente quando se busca pedaladas mais longas….
      Boas pedaladas!

    • Valeu, Pedaladas! A ideia é sempre melhorar em qualidade. Se no próximo pedal eu rodar a 10 km/h e chegar feliz ao meu destino, é isso o que vale.
      Bom pedal!!
      2012 tá chegando com tudo!

  3. Nossa que que irado Pri… adorei!!! sucesso com a Valentina, espero que ela lhe traga muitas alegrias… bjao

    • Hahaha é isso aí, Ana! Muita gente vai atrás dos seus sonhos… Eu também vou, mas vou pedalando e me divertindo. :b
      Beijão!

    • E espero que venham muitas outras! Coloquei teu blog na minha página de blogs, ok? Valeu! Abração e que 2012 venha com muita estrada pra nós!

    • Sempre bem-vindo, Rafa! E quando fizer um passeio bacana assim, cria um blog e compartilha com a galera! Abraços!

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