A noite triste

Teve uma noite dessas que a gente voltou muito triste pra casa. Depois de rolar no tatame do Porão, a Guiga me pegou e fizemos o caminho normal. Tem um retorno nesse caminho. Quando já estávamos do outro lado da rua, passou uma cachorrinha mancando. Eram 22:30 e não havia tanto movimento assim – até porque, nessa época do ano, os porto-alegrenses tiram férias e vão para o litoral.

Como a cachorrinha estava mancando, a Guiga parou a bicicleta e ficou assobiando para ver se ele voltava. Ela conseguiu atravessar o corredor de ônibus porque quase não havia ônibus, mas não conseguiu chegar ao outro lado da rua… Porque na curva os carros vêm a toda velocidade e mesmo que aparecesse o Papa pintado de ouro eles não veriam e passariam por cima. Como fizeram com a pobre cadelinha.

Ouvimos aquele barulho e um carro parando, e a Guiga me arrastou até onde estava o cachorro. O carro que parou não foi o que atropelou, foi o que vinha atrás. Uma mulher desceu do carro, pegou a cadela no colo e foi até a calçada. Eu fiquei escorada no muro enquanto a Gui tentava ligar para casa. Mas nada aconteceu, ninguém atendeu o telefone e ninguém que estava ali com a cachorrinha sabia o que fazer.

Me surpreendi com o sangue-frio da Guiga, que tentou usar o cérebro enquanto a cadelinha ia colocando a língua para fora. A mulher do carro deixou ela na calçada e, quando a Guiga a convenceu de que não havia mais o que fazer, ela foi embora dirigindo. Quando a Guiga ficou a sós com a cadela na calçada, ela chorou muito. Eu, se tivesse lágrimas para derramar, teria chorado também, de tão comovente. Afinal, menos de 1 minuto antes a cachorrinha manca apenas queria atravessar a rua. Sem culpa de não ser vista pelos motoristas sem noção da cidade!

Atropelamento de animais é coisa que acontece todos os dias, infelizmente. Essa cachorrinha ainda teve a sorte de, antes de morrer, ter a companhia gentil de dois seres humanos. Pelo menos ela não permaneceu no meio da rua, onde depois de agonizar e morrer ainda poderia ser esquartejada por carros ainda mais velozes que passariam por cima três, quatro, dez, vinte vezes.

Mas daqui a pouco quem é atropelado é um ciclista… Porque aos olhos de boa parte dos motoristas de carro, qualquer objeto “andante” que não seja carro não merece respeito nas pistas urbanas. Acho que a Guiga tá certa, o negócio é pegar a estrada e fugir dessa loucura que é o trânsito da cidade. É irresponsabilidade demais para um povo só!!

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